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COSMéTICAS.net

o «ESPAÇO» onde nem tudo o que parece é... música para os ouvidos !?

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O Facebook e as Pessoas, Que São Todas Iguais

13.12.18 | Paulo Jerónimo

 

 

A segunda é de vez. Está decidido. O meu voto de ano novo? Iniciar 2019 desinfetado da rede social Facebook.

Confesso que não é fácil, até porque já havia decidido e anunciado isto há pouco mais de um ano e fracassei, não tendo resistido à tentação e por lá me fui arrastando. 

Mas soam as campainhas e disparam as luzes de emergência quando em pouco tempo me vejo forçado, por uma questão de atitude, a bloquear o meu perfil a duas pessoas bastante idóneas e com quem há mais de 10 anos sabia dialogar por estas vias e hoje não há espaço nem para as ver espirrar na mais selvagem de todas as redes sociais. As pessoas em geral agridem-se gratuitamente, não medem atos e palavras, não medem nada. De ataques a orgasmos tudo se despeja na rede social.

O que se passa com o Facebook? 

Talvez Os Azeitonas ajudem a perceber com esta resenha bem atual.

As pessoas são todas iguais, canta a banda portuense no seu último álbum. Uma pérola. Mordaz sem o ser, uma leitura da sociedade sem o parecer, uma boa critica aos que só já não deixam cair a máscara porque fazem questão de fazer login desmascarados. Sem dor nem pudor.

Porque alí há coisas que irritam todos os dias ver, ou ler, vomitadas na rede, e que se personificam em: a  miúda do cabelo azul; o cavalheiro ali atrás; o homem do olhar obtuso; e a senhora de uma certa idade.

Indo por partes,

 

A miúda do cabelo azul. Os azeitonas vingam desde a sua nascença, entre outras coisas, pelo conteúdo substancial que colocam nas suas músicas, seja a nível lírico ou musical. Com o cabelo azul temos claramente uma alusão ao filme "A Vida de Adele", onde uma das duas lésbicas protagonistas se destaca por este estilo de cabelo. E se dúvidas houvessem elas desfazem-se quando o letrista decide intruduzir a partir do sexto verso uma clara alusão ao mundo da psicanalise, com a filha a chamar pela atenção do pai que a ignora. Trata-se de uma abordagem ao denominado por  Complexo de Electra, analogia desenvolvida pelo pai da psicanalise Sigmund Freud e na qual, segundo ele e mais alguns, justifica o desvio comportamental sexual das mulheres lésbicas. O facto do grupo musical optar por abordar esta temática pelo lado feminino da questão, ao contrario do mais habitual, que são os casos abundantes masculinos, comportamento este descrito na psicanalise pelo Complexo de Édipo - analogia idêntica onde Freud assenta a sua justificação para tal desvio (perdão pelo termo!) nos rapazes - e como por exemplo os Xutos & Pontapés já o fizeram há muitos anos aqui. A abertura da música com este tema na versão feminina, muito menos falado e conhecido,  dá azo, talvez , a uma sátira a corrente em voga #metoo.

 

O Cavalheiro ali atrás, esta é fácil, é de caras, ao cavalheiro a vida corre-lhe bem, se o país cai nas mãos dos espanhois, tanto lhe faz. Representa o grosso da classe média portuguesa, que se abstem nas eleições. Preocupada com a sua vidinha e, desde que esta lhe corra bem, está-se a marimbar para o ir votar. 

 

O homem do olhar obtuso é um caso mais sério. Não suporta gente como o "indigente cavalheiro ali atrás". Mais, o grunho de olhar obtuso tresanda a bafio, por baixo da sua manga à cave deve aplicar o mesmo desodorizante do grande Salazar e o cheiro é a perfume patchouli. Os modos, os trejeitos, os tiques machistas, a falta de tolerância, é estilo "Deus, Pátria e Família". Uma representação ou medo da possivel crescente franja de extrema direita em portugal. 

 

A senhora de uma certa idade. Também não é difícil. Saudosista, nostálgica, mais do que agarrada à mala marron, abraça-se aos velhinhos discos de vinil que não são os do tempo da sua juventude, mas sim da nossa, os que crescemos nos anos oitenta. Ver representada uma velhinha de cabelos brancos abraçada ao LP sensação do Kenny Rogers nos eighties, coloca-me, e com propriedade, no papel de um velho de 90 anos, quando se chega a condição dos, vá lá... três dias - para ser generoso - de sintonia na M80 sem mudar de estação.

Os Azeitonas é que sabem e sabem-na bem, antes vê-los ou ouvi-los a eles, do que viver com gente desta diariamente a espreitar na janela do ecrã. 

A música é uma arte, aliás, a mãe das artes. E como tal, cada um a ouve, vê e interpreta como quer, de maneira distinta ou igual. Já o José Mario Branco dizia: "A Cantiga é uma Arma". 

Já quanto ao Facebook, acabaram-se emissão de opinião direta, respostas a comentários provocadores, fica para um simples canal de propaganda dos posts do blog. Já que é lá que a carneirada para toda, sempre se faz desta forma um favor à sociedade.

Rest in peace FB.