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COSMéTICAS.net

o «ESPAÇO» onde nem tudo o que parece é... música para os ouvidos !?

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o «ESPAÇO» onde nem tudo o que parece é... música para os ouvidos !?

Amanhã será o primeiro dia do quê?

20.12.18 | Paulo Jerónimo

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A nação está mobilizada, o manifesto reivindicativo é público e dizem que não desmobilizarão enquanto não forem atendidos. Que assim seja. Porque se o dia de amanhã vai ser mais um dia, ou o primeiro dia do resto da nossa vida, está nas mãos dos Portugueses.

As forças de segurança estão prontas, infiltradas inclusive no meio dos manifestantes, e apelam ao cumprimento da lei. A classe política faz eco do mesmo. O Primeiro Ministro falou ontem sobre o assunto, e no seu tom de paternalismo diz que "espera que as manifestações decorram com calma e tranquilidade". António Costa e a classe política não sabem com o que lidam. No fundo o que ele diz aos portugueses é o que um pai responde a um filho quando faz birra: chora, chora, que quanto mais choras menos mijas.

Sucede que a democracia portuguesa já não é nenhuma criança. Está a sair da adolescência, a amadurecer, a tornar-se adulta. Tem sangue na guelra, quer mundo. A força motora deste país já não é o Portugal manso, Costa. Quem hoje reivindica já nasceu em democracia, não tem medo da policia ou do chicote porque nem sequer sabe o que é andar a toque de chicote. Não estão habituados a ficar calados. Não é o reverente povo de outrora que presta vassalagem  ao sr. doutor e sr. engenheiro, porque somos todos doutores e engenheiros, para isso os nossos pais lutaram, e a agora é a nossa vez de lutarmos, por nós, por os nossos filhos, e por eles que nos deram a democracia. Temos de honrar essa herança que nos ofereceram e com as armas dela lutaremos. Porque basta de nos roubarem a democracia. Que ela é nossa e não vossa - seus corruptos e polutos.

 

Manifs, pantomineiros e paralisação

19.12.18 | Paulo Jerónimo

 

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Enquanto a imprensa desespera pela primeira foto de coletes amarelos em multidão  que sejam verdadeiramente portugueses, para deixarem de ter necessidade de ilustrar as notícias com imagens francesas, recorde-se uma foto da última grande manifestação ocorrida em Portugal, promovida pela juventude portuguesa o também designado movimento da Geração à Rasca, a de 12 de Março de 2011 e subsequentes.

O diário francês Libération na altura publicou um artigo pertinente que procurava mostrar que a juventude portuguesa votava com os pés, ou seja, manifestando-se mas abstendo-se nas urnas.

Os franceses não estão de facto habilitados para avaliar a sociedade portuguesa pelo simples motivo de que a nossa é diferente da deles, e inclusive da Europa, coisa que eles desconhecem.

Sobre a manifestação do 12 de Março, aquela foi uma manifestação germinada por um grupo de amigos relacionados com o Bloco de Esquerda, na altura em que o Bloco era ainda anti-poder, e essa era idónea para a população em geral, mas quando os tiques extremistas do movimento vieram ao de cima e o povo viu estar ali mais do mesmo, ideologias partidárias, a força do movimento que durou várias semanas desvaneceu-se.

Agora dizem que "Vamos Parar Portugal", e ao contrário da de outrora que foi amplamente apoiada pelas instituições, desta feita a extrema esquerda, partidos, associações, sindicatos, demarcam-se e aparecem os fantasmas reacionários esquerdistas, inclusive os de vários cidadãos, que partem para a chacota deste movimento porque, dizem todos, anda ali o dedo da extrema direita e isso é que não. Estes, para além de só assinarem de cruz tudo o que seja à esquerda da esquerda, e que se foda Portugal, Ignoram portanto que não existe extrema direita propriamente dita no retângulo local. Okay, há o André ventura a por-se ao jeito, mas tem ainda muito para pedalar.

A realidade portuguesa é muito diferente da francesa e até mesmo da espanhola, no que toca a extrema direita, vandalismo e terrorismo. É muito diferente porque Portugal disso ainda não tem, mas isso dava e fica para outro post. Os Portugueses têm é falta de condições de vida e é isso que levará o povo em massa esta sexta feira à rua. Que não se baixem os braços!

 

Com arte & nus: Encuentro

17.12.18 | Paulo Jerónimo

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ECUENTRO

 

Besos, caricias, encuentros
mujeres a flor de piel.
Cuerpos desnudos
almas vestidas de amor
listas para danzar
en la fiesta de la unión.
Lucha, discurso, revuelta
intensidad que nos confronta
crecemos con energía, vitalidad y miedos.
Máscaras que caen al suelo
rodando a los pies del imperio.
Música
Alegría
Poesía
erotismo por siglos retenido
despertando hoy, para sentirnos,
bugas, lesbianas, dudosas
rompiendo cadenas
bailando al ritmo de la vida.
Brujas, magas, curanderas
entregándonos con fuerza
destruyendo esquemas.
Amigas nuevas y viejas conocidas
parejas
novias
compañeras
unidas al fin en el espacio.
Lágrimas
risas
promesas
deseo cumplidos y anhelos
volando por el tiempo
desencuentros que se quedan en el camino,
recuerdos del futuro que presiento.

 

Amparo Jimenez

Achados

16.12.18 | Paulo Jerónimo

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Vou a um negócio de homens, desta vez tens de ficar em casa, disse Cipriano Algor ao cão, que correra para ele quando o viu aproximar-se da furgoneta. É claro que o Achado não necessitava que o mandassem subir, bastava que lhe deixassem aberta a porta do carro o tempo suficiente para perceber que não o expulsariam depois, mas a causa real da sobressaltada corrida, por muito estranho que possa parecer, foi ter ele suposto, em sua ansiedade de cão, que o iam deixar sozinho. Marta, que saíra para o terreiro conversando com o pai e o acompanhava à furgoneta, tinha na mão o sobrescrito com os desenhos e a proposta, e embora o cão Achado não tenha idéias claras sobre o que são e para que servem sobrescritos, propostas e desenhos, conhece da vida, em todo o caso, que as pessoas que se dispõem a entrar em carros costumam levar consigo coisas que, em, geral, mesmo antes de para eles subirem, atiram para o banco de trás. Instruído por estas experiências, percebe-se que a memória do Achado o tenha levado a pensar que Marta iria acompanhar o pai nesta nova saída da furgoneta. Apesar de estar aqui há poucos dias, não tem dúvidas de que a casa dos donos é a sua casa, mas o seu sentido de propriedade, por incipiente, ainda não o autoriza a dizer, olhando em redor, tudo isto é meu. Aliás, um cão, seja qual for o tamanho, a raça e o carácter, jamais se atreveria a pronunciar palavras tão brutalmente possessivas, diria, quando muito, tudo isto é nosso, e ainda assim, revertendo ao caso particular destes oleiros e dos seus bens móveis e imóveis, o cão Achado nem daqui a dez anos será capaz de ver-se a si mesmo como terceiro proprietário. O máximo a que talvez consiga chegar quando for cão velho é ao obscuro e vago sentimento de participar em algo arriscadamente complexo e, por assim dizer, de escorregadias significações, um todo feito de partes em que cada uma é, ao mesmo tempo, a parte que é e o todo de que faz parte. Idéias aventurosas como esta, que o cérebro humano, grosso modo, é mais ou menos capaz de conceber, mas que logo tem uma enorme dificuldade em trocar por miúdos, são o pão nosso de cada dia nas diferentes nações caninas, quer de um ponto vista meramente teórico quer no que se refere às suas consequências práticas. Não se pense, contudo, que o espírito dos cães é como uma nuvem bonançosa que levemente passa, uma alvorada primaveral de suave luz, um tanque de jardim com cisnes brancos vogando, se o fosse não teria o Achado começado, de repente, a ganir lastimeiro, E eu, e eu, dizia ele. Para responder a tal desgarramento de alma aflita, não tinha achado Cipriano Algor, apreensivo como ia pela responsabilidade da missão que o levava ao Centro, melhores palavras que desta vez ficas em casa, o que valeu ao angustiado animal foi ter visto Marta dar dois passos atrás depois de ter entregado o sobrescrito ao pai, assim ficou o Achado ciente de que não o iriam deixar sem companhia, na verdade, mesmo constituindo cada parte, de per si, o todo a que pertence, como cremos que já deixámos demonstrado por a + b, duas partes, desde que estejam unidas, fazem muita diferença no total. Marta acenou ao pai um cansado gesto de adeus e voltou para casa. O cão não a seguiu logo, ficou à espera de que a furgoneta, depois de descer a ladeira para a estrada, desaparecesse por trás da primeira casa da povoação. Quando daí a pouco entrou na cozinha, viu que a dona estava sentada na mesma cadeira em que tinha trabalhado durante estes dias. Passava os dedos pelos olhos uma , e outra vez como se precisasse de aliviá-los de uma sombra ou de uma dor. Decerto por estar no tenro verdor da mocidade, Achado não teve ainda tempo de adquirir opiniões formadas, claras e definitivas sobre a necessidade e o significado das lágrimas no ser humano, no entanto, considerando que esses humores líquidos persistem em manifestar-se no estranho caldo de sentimento, razão e crueldade de que o dito ser humano é feito, pensou que talvez não fosse desacerto grave chegar-se à chorosa dona e pousar-lhe docemente a cabeça nos joelhos. Um cão mais idoso, e por essa razão, supondo que a idade está obrigada a suportar culpas duplicadas, mais cínico do que o cinismo que não pode evitar ter, comentaria com sarcasmo o afectuoso gesto, mas isso deveria ser porque o vazio da velhice o teria feito esquecer-se de que, em assuntos do coração e do sentir, sempre o demasiado foi melhor que o diminuído. Comovida, Marta passou-lhe devagar a mão pela cabeça, acariciando-o, e, como ele não se retirava e continuava a olhá-la fixamente, pegou num carvão e começou a riscar no papel os primeiros traços de um esboço. Ao princípio, as lágrimas impediam-na de ver bem, mas, pouco a pouco, ao mesmo tempo que a mão ganhava segurança, os olhos foram aclarando, e a cabeça do cão, como se emergisse do fundo de uma água turva, apareceu-lhe na sua inteira beleza e força, no seu mistério e na sua interrogação. A partir deste dia, Marta vai querer tanto ao cão Achado como sabemos que já lhe quer Cipriano.

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Extraído de: SARAMAGO, José. A Caverna. Companhia das Letras, 2000. p.85-87.

 

bat, bi, hiru, lau - in «O Último F» -Autobiografia

15.12.18 | Paulo Jerónimo

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João já te disse o casaco é este e com botas de borracha e chiu! Mãe, outra vez esse casaco com botões aos pauzinhos... Tu deixas é de ser esquisito, vestes o casaco e embora que estás atrasado. João Afonso esgotara as alternativas. Era de entre os três irmãos o que mais regateava as vestimentas que a mãe lhe apresentava, mas Júlia já possuía um mestrado de habilitações validado pela educação dos três rapazes. Redundante e sem deixar margens para dúvidas, habituara-se a contornar aquelas birras do filho do meio, que repetia frequentemente quanto à angústia do traquinas de cabelo liso castanho, franja esticada de corte arredondado mal amanhado feito pelo próprio pai e que mais lembrava um capacete penico que lhe tapava as orelhas. Certo era que o rapaz mostrava complexo de vestir aquelas roupas mais saloias não lhe basta-se já ter o estigma social de ser um Português em terras dos Pirenéus espanhóis.

Júlia Afonso era detentora de um intuito materno apurado e se havia coisa que não lhe faltava era a convicção de um suposto bom gosto abrilhantado por aquele toque algo refinado para a indumentária. Assim a vizinhança o confirmava, pois que eram frequentes os elogios que a mãe colhia entre pares pela apresentação esmerada dos miúdos, não obstante as dificuldades em cria-los sozinha o que não bastando, acrescentava-se ter ainda de sustentar o marido e aparar-lhe os golpes.

 

Adios! Resmungou João Afonso enquanto batia atrás de si a forte e pesada porta que também o próprio pai fizera. Jorge Silva é angolano, neto de um Português de Espinho que fora para colónia portuguesa e fizera fortuna no comércio do café e diamantes entre outros. Jorge tivera portanto berço, e tinha as típicas boas maneiras da alta sociedade de Luanda. Cuidava que tal berço se refletisse nos filhos e lá tinham de comer os miúdos, pelo menos quando o pai estava à mesa, de garfo e faca desde tenra idade, nem que a refeição fosse frango assado. Mas era também um rebelde parido de nascença. Filho do menino mulato da casa com a empregada preta como a ferrugem, um castanho tão escuro como o café torrado mas linda e com um brilho nos olhos maior que o dos diamantes que o patrão comercializava. Jorge é o primeiro, o mais velho dos pelo menos 13 filhos de cinco mulheres distintas que eram reconhecidos ao avô Ilídio. Autodidata por natureza, com a mesma habilidade que cortava o cabelo aos filhos, Jorge construia uma porta lá para casa, levantava uma parede em tijolo se preciso fosse ou reparava eletrodomésticos, esta que era a sua ocupação nas horas vagas, quando não se encontrava metido em confusão da grossa ou agarrado aos copos de bebida branca.

Já na rua, João Afonso tirou as perneiras das calças para fora das galochas pretas, descalçou as luvas que amarrotou para dentro dos bolsos do casaco impermeável caqui azul escuro com risca vermelha e branca, o seu preferido que andava sempre escondido na mochila para dias de emergência. Fez-se pela ladeira abaixo deixando para trás a Villa Namur em Pasai Antxo, povoação da periferia de San Sebastián, área dos subúrbios da cidade e que contava com 370 mil habitantes, daquela que era a capital da província espanhola de Guipúscoa situada na região autónoma do País Basco. Está no limite de fronteira do Noroeste de Espanha com a entrada oeste de França. A província Basca é a segunda mais poderosa economia do país, logo a seguir a de Madrid. Jorge Silva sabia-o, por isso para ali desertara de Portugal e fora embarcadiço nos primeiros tempos de San Sebastian cidade com alto movimento portuário. Por aquelas montanhas os dias eram brancos de neve naquele dezembro de 1982.

 

Espera João! Que também estou de saída, ouve o pequeno Afonso que voltou-se e lá vinha o companheiro das tropelias, Iñaki, de sete anos, mais um que João Afonso, também ele irmão do meio dos Iglesias, de Iker o mais velho, e Paloma a irmã mais nova por quem o coração do João palpitava.

Conho! Que teu adorado Luis Miguel Arconada deu-me ontem uma grande alegria. Mas que fífia aquele golo. Cô-coro-cô-cô! Cacareja Iñaki enquanto com os braços dobrados imita uma galinha a dar às assas. O pequeno chavalo não podia desperdiçar a oportunidade. Sabia como poucos da adoração que João Afonso nutria pelo guarda-redes da Selecção Espanhola, personalidade que era o orgulho do clube de futebol da cidade, o Real Sociedad. Luis Miguel Arconada, guarda-redes da equipa do campeonato espanhol que traja de azul e branco viria-se a tornar no maior ícone de sempre do Real Sociedad. De resto, Arconada era tão somente um nome que começava a ter tanto de sonante que se tornaria lendário no futebol mundial pela destreza entre postes, e conforme constataria o jovem João Afonso anos mais tarde. Já Iñaki era ferrenho adepto do clube da cidade portuaria vizinha de onde era oriunda a família, a capital da província de Biscaia com o seu clube rival o Atlético de Bilbao. Faziam os dois miúdos neste capítulo um curto circuito autêntico. Mandavam patanisca cheirava a queimado. Ostias, Iñaki! Gracias por el recuerdo, atirou Afonso de soslaio à provocação do Iglesias, prosseguindo, olha, já te disse que estamos a aprender o nome dos números nas aulas de euskera? Não, mas diz-me, o que sabes já tu em euskera? Já aprendi umas coisinhas, a contar até quatro por exemplo. João afina a garganta e emite os sons dos primeiros quatro algarismos do idioma nativo Basco: bat, bi, hiru, lau, e acrescenta, a la mierda el BILBAO! Joder João, que te den por culo, cabron de mierda que te agarro. Retira o que dizes! João corre, iñaki busca, atravessam desalmadamente a Plaza Central, saltando os primeiros bancos de madeira, fintando-se entre os anonimos que por alí passam indo à sua vida, com algumas paragens pelo meio para se abastecerem de bolas de neve a serem atiradas. Retira o que disseste, exigia Iñaki. A la mierda el Bilbao, devolvia João afonso - Bat, bi, hiru, lau. Acalmaram por fim com o estridente soar do sino da Igreja de San Firmin situada ali em plena praça. Batia a hora certa que é a mesma de entrada na escola logo alí ao lado. Já viste que ridículas estas batas, a dos parbulitos? Cala-te que ainda há poucos meses andavas com uma igual, devolveu-lhe Iñaki Iglesias, enquanto aguardavam pela passagem da fila dos alunos de parbulitos, as classes de pré-primária na escola espanhola.

 

in «O Último Fôlego» - Autobiografia

sítio oficial

I need a Hero - in «O Último F» - Autobiografia

14.12.18 | Paulo Jerónimo

 

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João Afonso agita com força o isqueiro branco da Bic no ar. Roda-lhe a pedra e dá faisca mas continua a não sair lume. levanta o isqueiro a altura dos olhos e verifica-lhe o nível de gás no contra-luz da rua. Encontra-se no Hall de entrada da pastelaria Nova Falagueira na Amadora. O dia é solarengo, o primeiro em que o astro que comanda a vida espreita neste ano de dois mil e dezoito, uma aberta aos dias frios e húmidos como o são sempre todos os de janeiro, exceto, recorda, os primeiros doze que dizem os antigos, cada um desses variar no clima variação essa que corresponde à previsão de cada um dos meses seguintes do ano. Este dia de Reis era solarengo portanto, e confere, junho seria um mês normal. Larga a fumaça solta pelas narinas. Abotoa o casaco com frio e olha para o cão preso pela trela no poste em frente que avisa quem por ali passa que esta é uma zona com vídeo vigilância, para segurança das pessoas, bens e prevenção criminal, lê-se. A Amadora não é de facto uma cidade pacífica. O cão esse não tem frio. Um Serra da Estrela de pelo comprido, cor fulvo lobeiro, com o sangue quente, uma boa dose de camada de gordura no próprio couro cabeludo, e com o seu manto de pelo lustroso, procura sempre os pisos mais frios para se deitar ou fica a sombra, não fosse ele concebido para sobreviver a invernos inteiros ao relento em ambiente de temperaturas negativas da serra que lhe dá nome à raça.

 

Olha o Tarzan! Dispara uma voz do canto da avenida. Tarzan! Oh conas, não vês que ele está preso ao poste da polícia, retorquiu uma segunda voz. Eram três gaiatos. Eu bem te disse que ele era cão polícia. Os ciganitos na ordem dos seis, dez, e treze anos fazem festas ao Herói que agora se levantara. Olha, como é que se desata isto? Psst, está quieto, pensas que estas em casa? Interrompe João Afonso na sua pausa de cigarro à porta da pastelaria. Os ciganos viram-se para trás com cara de cu sem saber o que dizer ao homem mas o mais puto e reguila de todos não perde tempo. Ah senhori, este cãoé é meué. É teu? Desde quando? Esse cão é meu. E não se chama Tarzan, chama-se Herói. É meué é, que encontrei-o abandonado noutro dia, até o prendi no acampamento com um cordeli e tudo mas ele arrebentou-o e saltoué o muro, e olhe que o muro é mais alto que você! e fugiué.

Com que então foste tu! Bem o podia procurar toda a tarde e noite dentro. E tu com ele preso. Este cão é meu, não viste que tinha coleira? Fugiu-me, estávamos a passear e nunca mais o encontrava. Se mais alguma vez o virem sozinho pegam nele pela coleira e vão-me tocar à campainha no prédio alí atrás em frente ao supermercado. Entendido? Sim senhori. Mas podemos brincar com ele? Podem. Oh senhori, porquê ele está preso a este poste da polícia, ele é cão polícia, perguntou o mais velho. É, responde Afonso. E o senhori é polícia? Sou. Portanto cuidado! Vês, eu não vos disse que era cão polícia! Eu já o tinha visto uma vez numa rusga que fizeram ao acampamento!

João Afonso dá uma gargalhada com vontade. Mal sonham os ciganos que o Herói ainda nem tivera tempo para grandes rusgas na cidade de há tão poucos dias que ali chegará.

 

A história do João e do Herói é ainda muito curta, nem sequer tem ainda uma semana, mas o canídeo já domina o território. Herói é um cão nobre, possante de movimentos e atitude, de fazer alguns transeuntes mudar de passeio quando o avistam à distância. É ao mesmo tempo o cão mais doce e carente de mimo que João Afonso algum dia conhecera. Ao mínimo descuido, à menor das oportunidades, o Serra da Estrela fugia e passava tardes inteiras nas suas pesquisas de rua. Foi o que fizera ao dono dois dias antes, que o deixou desorientado toda a tarde e serão dentro, à procura dele pela cidade e que não o encontrava. Pudera, afinal por um cordel estava preso. Era já meia noite quando se preparava para deitar numa noite que já a imaginava em branco preocupado com o paradeiro do cão, quando, numa última e derradeira tentativa do dia volta para trás largando a maçaneta da porta do quarto. Calça as botas, pega no chapéu de chuva e nas chaves e desce as escadas do prédio. Última tentativa, última ronda do dia, se não aparecer amanhã logo se vê, há-de lhe dar a fome, sabe onde tem comida. Será? Absorto nos pensamento Afonso abre a porta de saída do prédio, da dois passos em direção ao carro, e, pasme-se, fica intacto com o chápeu de chuva em posição de quem ia ser aberto, mas que se foda a puta da chuva. Deus me valha! Héroi, cabrão! Isto faz-se? O Serra da Estrela levanta a cabeça, olha para João Afonso, deixa cai-la de novo no chão onde estava prostrado, ao lado da roda esquerda do carro de João Afonso, visivelmente combalido. João Afonso analisa-o, tem medo que tenha sido batido pelo sôfrego trânsito da cidade. Herói não se levanta nem quando para isso é mandado. Apalpa-lhe todo o corpo, parece-lhe bem. João ajoelha-se ao seu lado, abraça-o pelo pescoço, beija-o e chora. Já sabes quem é o dono, caralho.

O cão apodera-se do coração do João naquele instante, ao fim de quase uma semana de convívio, mas a história do Herói e Afonso era outra e bem mais antiga. E o cão não o sabia.

in «O Último Fôlego» - Autobiografia

sítio oficial

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