Bestiário Ilustríssimo é uma recolha de cinquenta textos em roda da Arte e, mais especialmente, da música. Li o livro de Rui Eduardo Paes na Auvergne, no centro da França. Esta região é também uma região de "antigos" vulcões. Marco Santos, no prefácio à recolha, escreve que o livro foi escrito em Marte. Mas, se o homem já visita Marte, nunca visitou o fundo da Terra nem dos vulcões. E são quatro os Dragões que guardam o segredo da vida que só a Arte sabe expressar.


"O Dragão: Engolir-vos-ei humanos e sem qualquer distinção. Todos. Todavia, talvez salve alguns: Outros não".


Este velho poema Inglês integra a introdução ao texto de Sérgio Luís de Carvalho: Anno Domini 1348. Relato que conta a vida dum tabelião que se fecha em casa para se proteger da peste que assola a Europa e Portugal. À luz duma vela, ele vai ler as pranchas dum bestiário ilustrado que lhe tinham oferecido em criança. Cécile Lombard, a tradutora, escolheu um título diferente para a edição Francesa: Le Bestiaire Inachevé.


Por associação, devido aos títulos, de ideias ou por deformação profissional... vi uma continuidade entre os dois livros.

 

Rui Eduardo Paes é musicólogo. Também é autor de vários ensaios sobre Jazz e arte(s) contemporânea(s)... O prazer dos seus textos, descobertos no blog "Bitaites" de Marco Santos, levou-me, naturalmente, à leitura da recolha: Bestiário Ilustríssimo.


1. Dragão de Terra


No seu primeiro ensaio, o autor cita em preambulo Álvaro de Campos (F.Pessoa):"Sentir de todas as maneiras...". A obra de Rui Eduardo Paes é uma obra com entradas multiplas. O pacto de leitura que nos é proposto parece ser a vontade de desmascarar o discurso oficial sobre a arte. Num país que acaba de suprimir o "Ministério da Cultura", a luta a contra a estupidez e a ditadura cultural não pode assentar num fechar sobre si próprio. O mérito do autor é ter posto o seu saber e as suas ideias ao serviço da compreensão do mundo que nos rodeia. Isto é, autorizando um olhar universal sobre a Arte. E só esta universalidade nos permite interpretar o título: A Arte combate a vulgaridade e a destrói a bestialidade que existe em nós (Deleuze).

 

2. Dragão de Água


Gosto da referência ao Homunculus (pp.64-67). A lembrança de José Gil e de Herberto Hélder remetem para o estilhaçar do indivíduo no mundo actual, conceito que Fernando Pessoa cria com a constelação dos heterónimos. Nesta perspectiva, 
Rui E. Paes expressa e elucida, claramente, apoiando-se em José Gil, a noção de que a tentiva para entender outrem e a filosofia também podem e devem ser arte(s). E, isto, antes de serem dissertação. Deste ponto de vista, F. Pessoa seria não um poeta, mas um filósofo. Em paralelo, não pude deixar de estabelecer uma associação com a "BD-Manga" culto de Hidéo Yamamoto: Homunculus. Não deixa de ser curioso que fosse num país onde o modo de vida capitalista atinge um enorme expoente que surgisse artisticamente a narrativa duma experiência sobre o cérebro (dum "sem domicílio fixo") e o porvir do sentir. O que nos remete para um olhar critico sobre o início do século XXI: O homem estilhaçado, o sentir e o conceito, a besta e o homem,...


3. Dragão de Fogo

No seu texto n°11, Retro-Inovadores, Rui Eduardo Paes apresenta a criação dum centro cultural polivalente na vila do Fundão. Construído a partir duma antiga fábrica de moagem, esta realização mostra q
ue a arte é plural e interdisciplinar. Não sei se é um acaso ou não, a escolha de Rui Eduardo Paes. A vila do Fundão sempre foi um centro de resistência ao fascismo, ao colonialismo e aos seus crimes de guerra. O Jornal do Fundão compensou durante anos a não existência duma imprensa de dimensão nacional e livre. Foi uma publicação de resistência à estupidez e ao ordinário. Um pequeno semanário que se deu ao luxo de publicar textos de grandes vultos das artes de expressão Portuguesa. Um luxo as crónicas do poeta Brasileiro Carlos Drumond de Andrade...  Assim, não é surpreendente, escreve Rui Eduardo Paes que "muitos criadores procurem no passado as suas referências"(p.68).

 

4. Dragão de Ar


O último texto n°50, Gigantes aos Ombros de Gigantes, levanta a problemática da partilha da criação musical na internet. Rui Eduardo Paes critica, com razão penso, a uniformização dos gestos e tendências que os majors da indústria musical querem impor ou fabricar. Respondendo, o nosso autor cita as ideias da militante libertária Esther Ferrer que associa o anarquismo à criatividade. Desconhecido muitas vezes, também existe um movimento anarquista em Portugal. O livro de João Freire (desertor e militante antifascista) apresenta a história desse mesmo movimento. Este foi criado em 1887 em Lisboa. O "Grupo Comunista Anarquista" obedece às orientações anarquistas da sua época. Por exemplo, rejeita o sentimento patriótico ou nacional, o egoísmo das raças, das religiões e das línguas... 

 

Bestiário Ilustríssimo é uma bela recolha de textos. Estes podem ser lidos, independentemente, uns dos outros ou não. Uma obra Barroca que não se deixa fechar numa classificação determinante e determinada. Como os monstros que ornamentam as catedrais e colegiadas, os textos de Rui Eduardo Paes são um convite para pensar e sonhar.Uma a obra a ler e cujas muitas passagens são poesia. Linhas e parágrafos para serem lidos em voz alta, tal como a musicalidade da poesia. Mas não é para o nosso autor a música a mãe de todas as artes. 

Nuno

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O primeiro ministro Português actual chama-se Coelho e, politicamente, não honra a inteligência dos ilustres descendentes de Gama. Um dos coelhinhos dos meus filhos, denominado Gama, teve uma vasta e robusta descendência que desempenhou funções pedagógicas, sociais e culturais em vários infantários e escolas primárias. Todos sobreviveram e nenhum foi guisado.

 

O Coelho Português parece que esqueceu a história de Gama e dos seus descendentes e aboliu o Ministério da Cultura. Qualquer cidadã e qualquer cidadão do mundo não pode entender esta decisão. A cultura, a arte não servem só para promover a imagem e os artistas dum país ou duma região. São tambem um factor de paz, permitindo o diálogo e o reconhecimento mútuo. E, sobretudo, a cultura, no âmbito das suas manifestações, é uma actividade que permite a emancipação e que permite lutar contra a alienação. A condição para que um homem seja livre é que ele seja culto.

 

O primeiro ministério da cultura nasce em França em 1959. Na altura, a maior parte dos países não entendem a iniciativa, embora a Dinamarca acompanhe a novidade, criando em 1961 o seu ministério da cultura. O General De Gaulle pensa que a projecão internacional do país também deve passar pela arte e pela cultura. O famoso escritor André Malraux é nomeado à cabeça do "Ministère de Affaires Culturelles". Passado meio século, a França é o primeiro destino turístico do mundo. Não se visita só a França pela variedade infinita dos seus climas, pela qualidade das suas praias, das suas montanhas, dos seus vales... também se visita a França pelo tesouro que constitui os seus patrimónios históricos, a riqueza dos seus museus, o número impressionante de festivais e de eventos culturais. E o turismo é uma das primeiras indústrias do mundo.

 

Em Portugal, o ministério da cultura só aparece em 1995 com o governo Gueterres (socialista). Durou pouco. Mas a história sempre nos ensinou que as ditaduras e os seus descendentes abominam a cultura, fonte de memória livre. Assim, o encerramento do ministério da Cultura parece um absurdo quando se verifica que as artes Portuguesas estão a serem consagradas e reconhecidas internacionalmente. Em contrapartida, apoiam-se manifestações que visam a exploração dos trabalhadores e da classe média Portuguesa. A organização do "1° Salon de l'Immobilier Portugais", de 14 a 16 de Setembro, irá decorrer em Paris. Este acontecimento, organizado por "La Chambre de Commerce de l'Industrie Franco-Portugaise (CCIFP)", visa a venda de bens imobiliários, novos ou antigos, em Portugal. O que estava à venda, por exemplo, por 250 000 euros será oferecido por 100 000 euros. 

 

Sabemos que, em França, Portugal está muito longe de ser o destino preferido dos aposentados que compram casa no estrangeiro para gozar a reforma. Também já não é o destino exclusivo dos Franceses cujo os avôs ou uma parte dos avôs são ou eram Portugueses. Os pais espiritais, Cavaco e Barroso, do actual primeiro ministro Coelho, reduziram a identidade cultural de Portugal ao Sol e à Praia. Ao trabalho dos pais, ao Sol e à Praia, Coelho quer acrescentar uma casa com piscina.

 

Fica para saber se a piscina será de água doce ou salgada: Isto a propósito de ter lido que a obra de A. de Siza em Leça está ao abandono. 

Nuno

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A excelente revista mensal So Foot dedica, no número deste mês de Junho, um artigo aos jogadores naturalizados que jogaram ou jogam pela selecção do país de acolho. E estabelece uma classificação que engloba 25 jogadores.

A naturalização não é um fenómeno novo no mundo do futebol. Basta lembrar Di Stefano e Ferenc Puskas que, uma vez naturalizados, jogaram pela Espanha. Existe ainda, quanto à Espanha, o exemplo de Marcos Senna, nascido no Brasil. Jogador que ajudou a "selecion" a conquistar um titulo maior em 2008. O que não acontecia desde 1964.  

 

O topo da classificação é encabeçado pelo "naturalizado" Deco. A chamada do maestro do FC Porto à "selecção" aparece como a mais controversa devido às declarações na altura de Figo: "Isso prejudica o espírito de equipa. Se nasceu na China, muito bem, joga pela China". E, uma vez Figo citado podemos ler, ironicamente: Se Deco tem os olhos em amêndoa é porque tem sangue Japonês e não Chinês.

 

O que terá levado Figo a tais declarações? Não era ele um jogador habituado ao cosmopolitismo? Não conhecia ele a historia de Di Stefano e Puskas? As palavras de Figo espelham uma sociedade Portuguesa que é racista? Uma sociedade que esqueceu que é fruto duma enorme mistura? Pode ser racista uma sociedade em que qualquer família tem, no mínimo, um familiar que é e/imigrante?

Porque e quem tanto incomodava o "maitre à penser de Porto"? Por ser do FC Porto? Por ter sido descoberto pelo FC Porto? Por não incarnar nem o centralismo lisboeta nem a ruralidade Portuguesa?

 

A politica sempre esteve, embora em graus diversos, presente no mundo do futebol. Há quem compare a Ucrânia de hoje à Argentina de Videla. 

Dezasseis selecções e trinta e um jogos. Até 2 de Julho haverá dois Euros: Um dirá respeito ao futebol; Outro à moeda e à economia. Os governos em dificuldade apostam no Euro para fazerem ilusão ou diversão. Já o governo Francês não terá representantes oficiais na Ucrânia.

Explicitas são também as palavras do capitão Alemão, Phillipp Lahm: "A minha posição sobre os direitos fundamentais, direitos humanos, liberdade de expressão ou de imprensa não correspondem à situação actual da Ucrânia." Quando o primeiro ministro Espanhol pede ao seleccionador Espanhol para ganhar o Europeu, para dar alegria ao Espanhóis, Del Bosque responde-lhe com sabedoria e razão: "... a possivel vitoria no Euro não é a solução para os problemas do país." (Libé, p.4 / 6 jun) 

  

E se tudo ainda não estivesse podre? 

  

Fontes: So Foot, n°97 ; Libération, 6 Juin 2012

Nuno

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Com a atribuição da "Palme d'Or", graças ao seu filme Amour, M. Haneke junta-se ao circulo restrito dos realizadores que obtiveram por duas vezes a recompensa maior em Cannes.

 

O filme Amour é um conto sobre a velhice e a morte. E é uma narração dolorosa porque nos interroga sobre a nossa condição e a nossa dignidade.

O amor não é paixão como também a piedade não é compaixão, sendo esta ideia o fio condutor do relato. O casal de idosos, magnificamente interpretado por Emmanuelle Riva (Anne) e Jean-Louis Trintignant (Georges), reivindica dignidade. E quando a enfermeira, após a ter penteado, diz a Anne que está bela, Georges despede-a. É um dos exemplos onde é desmascarada a hipocrisia, a falsa "boa consciência" e onde é acusada a sociedade do espectáculo que parece só saber fingir.

 

Podemos levantar a pergunta se a nomeação do filme de M. Haneke não é uma resposta à alienação de quem já não quer conhecer os seus sentidos. Um filme que pinta um casal de idosos apreendendo o tempo, a dor e a sua relação com a morte. É uma fita que se opõe à tendência actual do cinema e, sobretudo, do cinema "made USA". Georges e Anne não são super-heróis, não são seres sobrenaturais ou seres fora do comum. Formam um casal de idade como tantos outros que podemos cruzar na nossa rua.

 

E não deixa de ser cómico o seguinte: Em 20 de Maio, o jornal "Nice Matin" publica uma crónica sobre o filme e cujo titulo diz tudo: "Haneke m'a tuer". Titulo que reenvia para uma comédia...

Nuno

 

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É imensamente curioso e sedutor ver que quando Grande Chefe Apache cria a etiqueta Futebol: Uma arena de morte?, passado pouco tempo Marc Perelman, professor universitário, escreve um longo artigo que apresenta quase o mesmo título. Penso que podemos descortinar semelhanças quanto a certos temas tratados como também diferenças. Mas a palavra que é a génese do pensamento sobre o futebol é a mesma: Arena. E não é uma palavra neutra...

Curioso e sedutor ver que duas personalidades, vivendo em países diferentes e tendo ocupações laborais diferentes, empregam, praticamente, o mesmo vocabulário. Segue a tradução do artigo de M. Perelman, escrito em 23 de Novembro de 2009:

 

  • "Contrariamente aos recentes dizeres da "secretária de Estado encarregada dos desportos, Senhora Rama Yade, o estádio nunca foi um "santuário e um lugar de civilização apaziguada". E poderá se tornar ainda menos esse lugar e esse santuário, apesar da produção de esforços muito mediáticos e, sobretudo, desesperados graças à nascença duma "célula nacional de prevenção contra a violência", dum "primeiro congresso nacional das associações de adeptos", tornando-se uma "federação nacional de adeptos". De mesmo, a repressão posta em obra pela ministra da Justiça, Senhora Alliot-Marie, parece também ineficaz com a "sua resposta penal particularmente dura  e rápida", o "seu carácter mais dissuasivo" graças às penas de proibição administrativa de entrar nos estádios. Estas políticas não entendem que a violência dos adeptos tornando-se rapidamente hooligans não decorre duma "minoria agitante", de "parasitas" que tomam como refém o "futebol".

 

A violência é praticada por ferozes hordas de apaixonados por futebol, massas compactas de brutos sem amarras, muitas vezes bêbedos e imensamente eficazes no diálogo por projecteis interpostos com os poderes públicos, mas para quem o futebol é uma parte decisiva da sua vida e o estádio uma família, uma casa. A violência não é pois exterior aos estádios, em "margem" como se disse aquando da morte de Brice Taton acontecida antes do encontro Toulouse - Partisan de Belgrado; Ela não é obra de indivíduos estranhos ao futebol.

As diferentes expressões de esta violência - dopagem, racismo, xenofobia, homofobia, "chauvinismo" - ressalvam duma "violência interna" consubstancial à única "lógica competitiva" e à qual o futebol está associado com todas as suas fibras. E esta lógica resume-se com palavras simples: Afrontamento, combate, choque, colisão entre jogadores de equipas dispostas a brigarem, batota. Esta violência toma forma nos estádios e também no desporto amador (o "Observatoire National de la Délinquance" indica uma subida preocupante da violência no futebol amador), havendo nos profissionais, entre outros, árbitros insultados, golpes provocando ferimentos graves, multiplicação de confrontos entre jogadores nos balneários ou entre espectadores nas bancadas: Tacos de basebol, navalhas, facas, armas de fogo são frequentes...

 

Em alguns anos esta violência, sem deixar os estádios, deslocou-se para fora destes: Os Fights opõem adeptos de equipas inimigas. A violência desagua nas cidades e, muitas vezes, em seus centros que se tornam os novos territórios dos confrontos entre adeptos e polícias aquando dos combates de rua  e a sua lista de degradações, de lojas destruídas, de carros queimados, de agressões a pessoas... Os estádios já não chegam para conter a violência que o futebol desencadeia.

Alegramo-nos demasiadamente depressa: Os estádios Ingleses, esvaziados dos seus hooligans, ter-se-iam tornado espaços de paz. Um derby recente, West-Ham-Millwall, degenerou em batalha campal entre hooligans embebidos de álcool e cujo racismo anti-imigrantes e orientação política de extrema direita é conhecida. As milhares de proibições de estádio e os preços extravagantes dos bilhetes deslocaram o problema para as divisões inferiores... Ora, é nos estádios do mundo inteiro e nas suas imediações, como na tranquila Suíça (jornalistas agredidos, batalhas campais entre hooligans na Basileia, em Zurique, em Sião.. a polícia utilizando balas de borracha e gás hilariante), passando pela Argentina (cinco adeptos mortos esta época em brigas), Marrocos, Tunísia e, sobretudo, Argélia (uma dezena de mortos desde 2005) que se manifesta "a violência provocada pelo futebol". Os estádios tornaram-se os lugares privilegiados da expressão desta violência e não outros lugares de agrupamento como os concertos de música, o teatro, o cinema, a praia...

 

A mão que permitiu, quarta-feira passada, a vitória da França perante a Irlanda é a consequência directa da gigantesca pressão económica e sociopolítica que o futebol apanha nos seus laços, põe de molho nos estádios e, depois, amplifica e restitui numa gigantesca caldeirada: ganhar a qualquer custo, fazer batota para ganhar, mentir após ter-se feito batota e ganho. Tal é a ideologia deletéria que promove o futebol e não que o futebol sofre. O futebol não é um jogo: Constitui, com o estádio, o fogo activo, o lugar central onde a crise das nossas sociedades toma um novo fôlego. O futebol é o vector duma "desintegração" de todos os quadros duma sociedade, das suas referências fundamentais como a identidade nacional que depende duma cultura comum e duma língua e não duma equipa com pitões, - uma entidade passageira, artificial e aleatória. Uma bola, uns "protegem-canelas" e uns livres são insuficientes para fundar uma soberania nacional. E a identificação dos jovens a um ídolo nos estádios ou a uma equipa vencedora, a sua integração pelo futebol à sociedade não fundará nunca uma identidade nacional.

 

É preciso agora pensar o futebol tal como ele é e não como o imaginamos ou o fantasmeamos. Assim, não é a violência que "gangrena" o futebol; Também não é uma minoria de ultras que contamina, parecendo que não, bravas pessoas calmas e pacíficas; E não são a mundialização ou ainda a mercantilização que corrompem e que sujam. A verdadeira gangrena que infesta a vida das nossas sociedades tem por nome futebol; E o estádio é intrinsecamente o lugar onde refogam as futuras explosões de violência porque os rancores (pesados) sociais e políticos amealhados se associam intimamente ao futebol; São orientados por este, exprimindo-se em caldeirões equipados para os receberem, os capturarem e os amplificarem até que desbordem na cidade, transformando-os em colunas guerreiras.

 

A violência dos adeptos não é apenas a expressão duma aflição social; Ela está no coração do projecto futebol que é a expressão dessa aflição social; Os movimentos preocupantes de exaltação e de identificação, da fúria nacionalista entre o Egipto e a Argélia maciçamente enquadrados pela polícia e pelo exército não envenenam o futebol, o verdadeiro veneno chama-se futebol e o estádio serve-lhe de recipiente e a cidade torna-se o seu território."

 

Obs: Esta tradução, esperando que esteja bem, é uma homenagem ao Grande Chefe Apache.

Nuno

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O texto de Guimarães Rosa Grande Sertão: Veredas é o maior romance da literatura de expressão portuguesa. Este texto está para a literatura de expressão portuguesa como Finnegans Wake de J. Joyce está para a literatura de expressão inglesa.

 

É um livro que assenta numa linguagem criada por G. Rosa para definir o seu Cosmos (tal como o fizera Joyce). Um Cosmos que é uma combinação e oposição simultânea entre: O "material" e o "espiritual", o bem e o mal... O "material" é a linguagem, a luta pela expressão; O "espiritual" é a memória, a luta entre valores (bem / mal), o porvir. Para que as personagens possam ser fluidas, combinando oposições, o autor dá nascença a uma nova língua.

 

As primeiras páginas não são fáceis de entender. Mas com o decorrer da leitura o universo "Roseano" abre-se. Existe um dicionário pensado por Nei Leandro de Castro que pode ajudar: Universo e Vocabulário do Grande Sertão (Livraria J. Olympio Editora, Rio). Mas continuo a pensar que depressa se entende que "canoar" é navegar em canoa ou que "ventear" é produzir vento...

 

O Sertão é o Cosmos que pinta a união e a oposição entre o aquém e o além, o bem e o mal...Na descrição da evolução da batalha entre as bandas rivais de jagunços todas as formas e temas maiores são salientados: O romance de cavalaria, o romance épico, o pacto com o diabo, o naturalismo, a crença, o esoterismo, o existencialismo...

 

O nome dos personagens é também muito importante. Tomemos, por exemplo, Riobaldo e Diadorim. Riobaldo é o jagunço letrado que vai para a guerra. Ele tem que vencer e faz um pacto com o diabo. Está também apaixonado por Diadorim. O seu código proíbe amar homens. A sua existência fica dividida por esta oposição. Na batalha final, Diadorim morre e Riobaldo descobre que a sua paixão é uma mulher disfarçada em homem. Um tema muito clássico da literatura medieval: Diadorim disfarça-se de mulher para poder acompanhar o seu pai na guerra. Como é também um tema muito clássico o pacto com o diabo. Está presente quer em Goethe (Fausto) quer em Pessoa.

 

De novo se expressa a noção de movimento: O bem, o mal, o convencional, o "inconvencional"... num perde-ganha-perde-ganha... O subtítulo da obra é "o diabo na rua, no meio do redemoinho..." dá a sensação de agitação, mudança, novidade...

 

Já é menos clássico que o pacto com o diabo apareça, linha menos linha, no centro da narração, criando uma simetria. Já é menos clássico a polissemia do nome Diadorim: Dia-dor-im. A primeira sílaba reenvia para a palavra "dia" e também para a primeira sílaba das palavras "diabo" e "diálogo"... O dia da dor? O diabo da dor? O diálogo da dor?... Podem haver várias interpretações. O sufixo "im" é um sufixo que acentua a insistência como, por exemplo, na palavra "mandarim": Mandar+im. O nome da personagem Rio+balde evoca, sobretudo, a palavra rio que lembra a água, a vida, a viagem, a foz, novos mundos. 

 

O texto elaborado por Guimarães Rosa termina com o símbolo do infinito. A palavra "fim" não pode existir no Cosmos, no diálogo entre o aquém e o além, entre o bem e o mal. Deste permanente diálogo nasce da boca de Riobaldo a frase que atravessa repetitivamente toda a narração: "Viver é muito perigoso". O Cosmos é Deus e o diabo é o seu subconjunto, não podendo um existir sem o outro. E Riobaldo explica que quem decide somos nós e que somos nós os únicos responsáveis por nossas decisões. Eis as últimas palavras do texto que antecedem o símbolo do infinito:

 

"Amigos somos. Nonada. O diabo não há! É o que eu digo, se for... Existe é homem humano. Travessia."

 

O texto de G. Rosa conheceu outras edições. E é estranho que algumas tenham esquecido o símbolo do infinito como também transformado a capa com todos os pormenores e signos desejados pelo autor.

 

Porquê? Sim, porquê? 

Nuno 

obs: Para Gisleuda, o prometido é devido.

por PortoMaravilha | link do post

 

 

 

O Museu Le Louvre convidou Le Clézio, prémio Nobel de literatura em 2008, para apresentar formas de arte que nos permitem melhor nos compreender. A manifestação ocorre de 3 de Nov a 6 de Fev.

Há trinta anos a realização de tal exposição teria sido impossível no Louvre.

Penso que os progressos da etnologia, da antropologia... têm desaguado na compreensão da complexidade do ser humano.

E aqueles que pareciam ou parecem longe de nós são, em realidade, complementares com as nossas memórias colectivas.

 

Interessantes estas palavras de Le Clézio:

 

"Não gosto muito da palavra "arte", ela subentende a existência duma receita, duma fabricação, duma planificação. Prefiro a palavra "criação" que induz maior espontaneadade."

 

Fonte e foto: Télérama, 19 de Out de 2011

Nuno

por PortoMaravilha | link do post

 

 

 

Muito foram desrespeitados os emigrantes, em férias em Portugal, quando empregavam a palavra "retrete" por reforma ou, por exemplo, a palavra "vacanças" por férias.

Tendo vivido debaixo do fascismo, tais regalias sociais eram-lhes desconhecidas. Limitaram-se a "aportuguesar" conceitos linguísticos e regalias sociais que faziam parte da sua vivência quotidiana em França e que o fascismo Português sempre lhes negou.

No âmbito deste contexto, nenhum sociólogo ou historiador esclarecido pode acreditar que o Estádio da Luz tivesse sido construído, em suas horas livres por benévolos cidadãos que trabalhavam do nascer ao pôr do sol.

A menos que Lisboa não fosse Portugal... E que os trabalhadores de Lisboa tivessem regalias que os outros trabalhadores fora de Lisboa não tinham...

 

Estranha também a ideia, para um historiador, que as Assembleias do Benfica fossem uma aprendizagem da democracia... Como se o Salazarismo, herdeiro nato das práticas da Inquisição, não tivesse olho em tudo... 

A história, quando pode ser ensinada, desencadeia questionamentos e interrogações.

Estranho que se esqueçam os panfletos dos desertores e dos pacifistas e, também, de movimentos políticos que denunciavam a presença do Benfica, em Colombes, para levantar o moral dos Portugueses que viviam em bairros de lata, para lembrar "a pátria amada"... ou/e  remessas amadas...

 

E, actualmente, também, não deixa de ser curioso que o Benfica se proclame o clube com mais adeptos no mundo. O que é ridículo! Mas não nascerá esta ideia na continuidade da megalomania desenvolvida pelo Fascismo Salazarista?

E talvez não seja uma simples contradição se, após o 25 de Abril de 1974,o FC. Porto é o clube com maiores simpatizantes na e/imigração, em França.

Mas esta dialéctica, algo que custa a entender aos jornalistas desportivos que só pensam no Benfica e, por arrastamento, no Porto (realidade obrigatória ) ... só deu luz ao direito à preguiça, graças ao FC.Porto: Ao Direito de ser a "Sua Terra".

E talvez não seja um acaso se o Direito à Preguiça originou uma obra de arte longe do (ou de?)  Benfica e de Lisboa? 

 

Qual é o único estádio de futebol digno de interesse em Portugal: Link ?

Contudo, fica para saber como é que alguns dos porta-vozes  do FC. Porto e alguns dos seus adeptos podem empregar, ainda hoje, a palavra "regime", referindo o Benfica?

Ao que se referem e a quem se referem? É muito confuso politicamente...

É que Portugal, apesar das suas imperfeições, é um país democrático. Não é um regime!

 

Imagem:Le droit à la paresse, Paul Lafargue, capa da obra, ed. Maspero, Paris, 1975

Nuno

por PortoMaravilha | link do post

 

Não editarei este post em Francês.

Também não darei qualquer foto.

Pensei que a bacia do Alqueva tivesse sido feita para ajudar a rega de plantações.

Mas não!

Ofícios ou agências de viagem propõe passeios pelo Alqueva e pelo Alentejo.

Três dias são 1500 euros... E só a estadia!

Quem pode?

Um jovem prof Francês tem,  por mês, um salário máximo de 1300 euros...

 

Este texto não é um texto populista. Que se reconheçam as greves, as manifestações...cada vez mais abafadas, pela imprensa, na Europa.

A teoria Marxista, quer se queira ou não, está cada vez mais de actualidade.

 

Ou seja, o nosso futuro está nas mãos da pequena burguesia.

Quem teve a sorte de aprender o questionamento?

Internacionalismo ou nacionalismo?

E a pequena burguesia és tu e também sou eu.

Nuno

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Após o Planeta dos Macacos, eis nos no Planeta dos Sábios...

Jul realizou com Charles Pépin uma enciclopédia, em Bd, da filosofia e dos filósofos.

O álbum, La Planète des sages, ed. Dargaud, estará disponível a partir de 26 de Agosto.

É este álbum uma maneira lúdica de divulgar a filosofia ? Fica a pergunta...

 

Imagem: BDCAF'mag, nº38, p.14 / Este post pode ser lido como a continuação de: Sê Macaco e grita

Nuno

por PortoMaravilha | link do post

 

 

 

Parece-me que existe uma obra indispensável para melhor compreender a evolução do jornalismo :

"L'Etat séducteur: Les Révolutions médialogiques du pouvoir" de Régis Débray.

Se esta obra data de 1993 e que o seu teor teórico pode ser posto em causa, também não é menos verdade que nos lega um testemunho indispensável, o de Jean Claude Guillebard, jornalista do Sud-Ouest-Dimanche em 1970.

 

Leia-se:

"... Esperava-se dos nossos artigos que estes emocionassem, raramente, que explicassem. O Biafra esperava que nos interessássemos pela sua causa e, nós, ocupámo-nos, prudentemente, dos seus sofrimentos. O Biafra, por isso, morreu."

 

Fonte: Obra citada, p. 117, Paris, Gallimard, 1993 /  Foto: Contra capa da revista Latitudes, jun 2011

Nuno

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O texto de Agnès Pellerin apresenta-nos uma história do Fado que esclarece a ambivalência desta forma musical.

É um olhar exterior a Portugal que mostra que o Fado sempre soube, graças às suas origens populares, guardar a ideia que a vida é movimento.

As suas origens populares permitiram-lhe conservar, "bom ano mau ano", uma recusa de qualquer identificação com os modelos elitistas, ou seja, a expressão de desconfiança em relação à cultura oficial.

 

O texto de Agnès Pellerin pode ser lido aqui:  link (aguardar pela descarga do pdf)

O Cosméticas deixa, aqui, bem expresso, o seu agradecimento à revista Latitudes.

 

Fonte: Revista Latitudes, nº26, Abril 2006

Nuno

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Que de há muito é habitual.

Clássico é o movimento do mundo em uníssono.

São o tilintar de quatro pistons sincronizados.

É aquele retrato que guardas, belissimo.

É um par de namorados, apaixonados.

 

É o mais puro estado de alma inocente

É mais um amanhecer - resplandescente.

É um orgasmo em crescente

É um ser único. Ou de tanta gente...

 

É uma mão cheia de nada, vazia

É mais um parto por uma mãe benzida.

 

E se ainda não descobriste,

O que de mais sublime há no clássico de uma melodia

Ainda não despertas-te,

Para o que de mais belo há na vida.

Bom fim de semana!

por PCJS

 

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Depois da primeira parte (C1 §1) do capítulo 1 que introduz   João Afonso, personagem à volta da qual se desenrola o enredo de «O último fôlego», eis que aí está  o C1 §2 que nos transporta juntamente com o inquieto jornalista para sua meninice decorrida entre a calmaria, e a reviravolta, do  reacender pela causa etarra no País  Basco, em plena viragem do ano 1977 para 78.

 

 

E tu, vais perder os novos desenvolvimentos?

[a continuar nas próximas 24h]

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música: Tim Maia & Gal Costa - Um dia de domingo

 

Para onde eu vou, o quê é  que eu faço?

Em que tom vivo?  Aperto o laço...

 

Quantas vezes te riste? Imprimiste o teu cunho? Estico a camisa, abotoo o punho.

Sê livre em consciência perante as encruzilhadas da vida. Continuas a ser o mesmo ainda que o espelho não to diga.

 

Componho o cabelo e verifico o fato. Endireito o vinco,  ato o sapato. Viro costas, saio porta fora: Podes contornar meio mundo, mas não os valores  de outrora.

 

Porque um dia regressas e então constatas:

- Aqui estou eu vestido de gala,

é a puta da vida, que um dia nos cala.

 

  

(O último fôlego, é um novo projeto que me proponho a percorrer. Assim não me faltem as forças, para o ver crescer.)

 

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música: Mark Knofler - Going home (Theme fron Local Hero)

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