Se a grandeza de uma cidade se medisse pela sua miséria, então, o Porto seria maior que Lisboa, e Lisboa mais miserável do que o Porto. Certo é que não existem grandes cidades nem capitais sem os seus mendigos, sem seus sem-abrigos ou pedintes. Nem sem os seus loucos que nos abordam no inóspito das esquinas. Aleijados nos passeios, familias completas de refugiados com pai, mãe e filhos. Podemos virar-lhes a cara, encara-los como fraudes ou problemas dos outros. Pedem-te uma moeda, comida, tabaco, o que se queira. No mínimo, merecem um sorriso, um aperto de mão, uma palavra de coragem. Porque o dia de amanhã nunca ninguém o viu , e a vida é uma passagem, para a outra margem.

 

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Ao centro: família de refugiados sírios. Avenue des Champs Elysees, Paris

por MrCosmos | link do post

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Paris, 9 de setembro 2017, 9h07 pm, desço a rua que me hão descrito como La Grand Avenue para chegar a Torre Eiffel.

- Senhor, conhece Paris? Não, é a minha primeira vez em Paris. A expressão de frustração de Elie não se rende à segunda questão, E não viu por aí uma igreja onde me possa dirigir? Não. O Senhor é Católico? Não. Cristão? Sou agnóstico, a religião é das piores coisas que o homem podia inventar... Elie deu-me uma palmada no ombro com relativa força. Não sei se por reprovação ao que ouvira ou se pretendia expulsar algo de mau em mim. Como se chama? Jerónimo. Muito prazer, chamo-me Elie, sou de Aleppo na Siria, Antropólogo e professor de filosofia. De onde vens? Portugal. Ah, Fátima! Elie Intaká abriu o segundo botão da camisa, retirou o seu amuleto de madeira, um crucifixo com a mensagem pregada na cruz em árabe. Eu sou devoto de Fátima. E eu vivo a 14 Km de Fátima. Então como podes dizer que a religião é a pior coisa que o homem já inventou? Porque já sofri a minha quota parte por ela, porque provavelmente o senhor está a sofrer muito por ela, pelas guerras dela. Elie comove-se tremendamente, os seus olhos vivos que até ali me queriam transmitir algo ficam baços. Se alguém lhe provasse das lágrimas que não consegue agora conter, imagino que seriam mais amargas do que as águas salgadas e agitadas que já terá atravessado até se cruzar ali comigo, na Grand Avenue. Mas como podes tu ignorar Deus? Por Deus eu cheguei aqui, estou aqui a falar contigo. Eu não ignoro Deus, apenas deixei de me questionar o que ele quer de mim e de me permitir a que a sua vontade condicionasse a minha vida, porque isso não é ser Deus, condicionar os seus súbditos de forma tão cruel ao ponto de se acreditar que lhe devemos sacrifícios, ou a vida... eu não posso venerar um deus como o do velho testamento, que cometeu tantas atrocidades, tantas mortes, tanto sofrimento nos humanos. Só porque sim, porque quero, posso e mando. Esse não pode ser o meu deus com D grande, Quem é então esse teu Deus, que dizes que não ignoras? Deus para para as mentes que chamo agnósticas não deve ser uma preocupação, se existe ou não existe, se em corpo ou forma, espírito ou visível, se tem planos para mim ou não, isso não deve ser da minha preocupação. Eu vejo Deus nesta árvore que aqui cresce ao nosso lado, sinto Deus no frio da brisa que nos regela agora a cara, na força das tempestades que assolam os Estados Unidos, nos olhos da minha filha quando se decepciona comigo. Deus é toda a natureza que me envolve, e ela trata de me equilibrar, sem me pedir nada em troca, e por isso lhe sou grato, à mãe Natureza, se quiseres, o meu Deus. Elie já não queria chorar, sorria, nos abraçamos, ele beijou a minha testa e se afastou. Queria deixá-lo partir, e penso que ele queria partir pelos hesitantes passos que deu mas avançou de novo para mim e pôs a mão direita no seu peito esquerdo, e com os olhos novamente cheios de amargura me voltou a indagar, Vou-te pedir um favor que nunca pensei vir a necessitar de pedir, o meu filho só me consegue fazer chegar dinheiro pela Western Union daqui por dois dias, e hoje tenho uma etapa fundamental , e que me aflige, porque todo o meu futuro depende de eu chegar a tempo, até amanhã a tarde a um amigo que me aguarda muito longe daqui, preciso de 52€ para o bilhete do comboio que me levará, e não tenho dinheiro para comer ou onde dormir há dois dias. Por isso procuro uma igreja e não a encontro, mas encontrei-te a ti, suplico-te, ajuda-me. Neste momento já chorava-mos os dois e com voz embargada lhe explico, Não tenho esse dinheiro comigo, queria muito te ajudar, mas o que tenho no bolso é para as refeições dos próximos dois dias e já é menos do que esperava, Quanto me podes dar? 20€. Obrigado, respondeu Elie estendendo a mão. Meti a mão ao bolso donde me saiu um monte de cartões, recibos e algumas notas dobradas com a de vinte a cobrilas. Ao desdobra-la para lha dar aparecem as restantes de 5€ num montinho generoso, Elie abana a mão e súplica por mais, os seus olhos me fazem esquecer tudo no momento e desdobro as restantes depositado-as na palma da sua mão, Vinte e cinco, trinta, trinta e cinco, quarenta, é tudo o que tenho Elie, e ficarei sem dinheiro para comer, mas tu ficarias pior sem ele, eu ca me arranjo. Mas Elie insiste, sem pronunciar uma só palavra, um só gemido, uma sequer expressão, abana a mão com firmeza e aquela mão me diz, Mais. No desespero da situação quando lhe ia a dizer e mostrar que, Elie, não tenho mais , de repente ao folhear os recibos e cartões que tinha ainda na mão aparecem mais algumas notas de cinco com que não contava e para minha estranha surpresa, mas não da dele. Quarenta e cinco, cinquenta, Quanto disseste que precisavas? Cinquenta e dois, depositei-lhe na mão estendida a última nota que tinha, Cinquenta e cinco. Eli deu dois passos atrás, uniu as duas mãos com o dinheiro ainda no meio delas elevo-as entre o queixo e o nariz em sinal de prece, e de cabeça inclinada para o céu soltou umas palavras incompreensiveis. Arrumou o dinheiro, e dirigiu-se a mim deu-me um abraço apertado enquanto me dizia, Deus te recompensará em dobro. Não te esqueças de mim, Elie intaká professor de filosofia, Aleppo. Não esquecerei, mas espera, quero uma recordação tua, uma foto, pode ser? E algo teu que possa trazer comigo. Como assim contigo? Um objeto, uma simples mensagem escrita num papel, o que queiras. Okay, assim terás.

Ficou parado a olhar para mim enquanto eu me afastava, soube disso porque depois de alguns passos desde que o deixará, me havia voltado procurando saber a direção que tomaria. Estava lá, no mesmo sítio com mão estática no ar despedindo-se, sorri e acenei um adeus, e prossegui.

Dobro a esquina com um turbilhão de emoções pois que não me entendia. O que fora aquilo, como é possível, que sorte será a deste homem? E lá estava ela, a grandiosidade de Eiffel. À volta se ouviam falar demasiadas línguas, uma verdadeira Torre de Babel, que reza a história um dia deus a impediria, na tamanha ousadia dos homens quererem fazer uma torre que toca-se os ceus, e confundido-lhes a língua aos trabalhadores, deus vetou-lhes o feito. Parei obliquamente na direção dela. Acendi o cigarro do momento, pois que se fumar mata, ao menos que cada cigarro seja uma vitória, uma contemplação, um celebrar da vida. Aquele era o da minha celebração a Elie. Durante dois minutos, permaneço de pescoço torcido para o ar, não porque dê jeito aos pulmões para expulsar o veneno, mas para apreciar a crueza da obra, ferro puro, minerio velho, escória da mãe terra, e que um deus da engenharia soube conjugar. E assombra-me agora ao pensamento, Como pode a humanidade ser capaz de coisas tão grandiosas na mesma medida em que pratica as mais asquerosas?

Apaguei a beata, na calçada de Paris.

Bonne chance, Elie. Não nos esqueceremos de ti.

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    Com Elie Intaká, sob a "Árvore de Deus"

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